Que formas de conhecimento permanecem à margem dos circuitos instituídos? Como se transmitem quando não cabem na escola, no manual ou no arquivo? Esta estação convida-nos a pensar a pedagogia como prática estética e política, onde aprender e ensinar se confundem com gestos de resistência, fabulação e imaginação coletiva.
Ultrapassando hierarquias, o conhecimento circula como experiência encarnada: histórias contadas, rituais repetidos, gestos partilhados. A escola deixa de ser edifício para se tornar espaço expandido — na floresta, no fundo do mar, na praça, no corpo. São transmissões periféricas e subterrâneas: saberes que se espalham, passando de mão em mão, de corpo em corpo, entrelaçando-se como fios num tear comum. Na vaga, a Bienal abre um campo de escuta e transmissão que desafia fronteiras disciplinares e reativa pedagogias insurgentes. Aprender surge como ato de imaginação, de atenção e de dissidência.
Obras na Exposição
Cian Dayrit
Tree of Life in the State of Decay and Rebirth (2019)
O trabalho de Dayrit reflete o seu interesse pelo gesto de cartografar. A árvore traça as questões interligadas que derivam do imperialismo, feudalismo e capitalismo, delineando as lutas da Maioria Global. Bordados densos e simbolismo insurgente compõem uma paisagem de resistência e regeneração — onde a abundância se manifesta no cuidado, na luta e no enraizamento cultural.
Catarina Gonçalves
Resisto Resisto Resisto (2025)
Reunindo diferentes gerações e culturas residentes nos Açores, o filme acompanha uma viagem transdisciplinar em torno da tríade eu–corpo–espaço. Usando a arte como ato cívico, reivindica o direito de ocupar o espaço público e de moldar futuros partilhados. As oficinas e programas foram concebidos no âmbito do Transmalhar, um projeto de aprendizagem através da arte da Anda&Fala, que decorreu ao longo de 2023 e 2024.
Resolve Collective (Nova Comissão)
The Gallivantation of the Promise
O Resolve Collective apresenta uma instalação acompanhada de oficinas que exploram o “vaguear” como método de conhecimento e de contra-cartografia. Através de gestos intuitivos e comunitários, imaginam cenografias efémeras, vocações diaspóricas e modos de habitar o território com humor, precisão e radicalidade relacional. A par desta instalação na vaga, o projeto desdobra-se ainda em instalações satélite em São Miguel.
Meg Stuart & Pacap 8 (Nova Comissão)
Sulphur Edges (2025)
O filme é um encontro coreográfico moldado com e através do lugar. Criado durante a residência PACAP 8/Mystery School, que reuniu um grupo internacional de artistas de performance incentivados a abraçar o não-saber, a desorientação e a improvisação coletiva como pontos de entrada para a transformação. Desdobra-se nos sítios termais de São Miguel, onde os intérpretes se entregam às forças elementares e ao ambiente, entre silêncio e tremor, contenção e libertação.
Sónia Vaz Borges & Filipa César
Mangrove School (2022)
O filme reflete sobre as escolas construídas nos mangais da Guiné-Bissau durante a luta anticolonial. Memória, ecologia e pedagogia insurgente entrelaçam-se num retrato poético de resistência, onde o próprio território se torna sala de aula e refúgio.
Sónia Vaz Borges & Mónica de Miranda
Weaving Stories (2024)
Entrelaça narrativas de resistência e transmissão feminina em contextos pós-coloniais. O ato de tecer surge simultaneamente como gesto político e espiritual, revelando saberes que fluem entre o íntimo e o coletivo, entre o tempo histórico e o mítico.