Nesta estação, a abundância é concebida como reverberação — aquilo que ecoa, que persiste, que se torna visível quando vemos e escutamos com tempo, atenção e abertura. Ela manifesta-se no silêncio, na latência, no que resiste à evidência ou à velocidade da imagem. Contra a ideia de visibilidade como totalidade, as obras apresentadas aqui operam pela subtileza, pelo desvio e pelo deslocamento.
Cartografar é, neste contexto, um gesto crítico e sensível. As obras ensaiam formas de reler arquivos, escutar territórios ou habitar o tempo de outro modo. Entre paisagens sonoras, documentos históricos, tremores geológicos e imagens danificadas, constrói-se um campo comum de investigação sobre como se produz e transmite memória — e sobre como escutar o que ficou por dizer. Ao colocar em relação corpo, arquivo, som e matéria, estas propostas abrem espaço para formas de conhecimento situadas, relacionais e afetivas.
Obras na Exposição
Ana Vieira
As Chaves (2008)
Com uma prática marcada pela atenção ao invisível e ao íntimo, Ana Vieira convida o público a iluminar frases gravadas no escuro. O gesto de ver torna-se ativo e relacional, convocando o corpo para descobrir o que só se revela devagar — um elogio à atenção, à escuta e ao não-dito.
Isabel Medeiros
Aclarar (2023)
A partir da memória dos avós e da erupção dos Capelinhos, Isabel Medeiros compõe um ensaio visual sobre esquecimento, tempo e matéria. O filme, feito de imagens contaminadas por fungos, propõe uma arqueologia sensível da memória — onde o apagamento se transforma em gesto poético.
Joana Sá (Nova Comissão)
Variações sobre inquietação (2025)
Pianista e investigadora, Joana Sá escuta o território como um corpo inquieto e vibrátil. Em diálogo com o vulcanismo dos Açores, transpõe ritmos geológicos em experiências sonoras, performativas e editoriais. A sua prática explora a abundância que habita a instabilidade — uma escuta expandida que liga corpo, tempo e lugar, em busca de outras formas de estar no mundo.
Jokkoo Collective (Nova Comissão)
Spectral Traces (2025)
Combinando gravações de campo, composição, filme e investigação de arquivo, esta instalação convida-nos a um processo de escuta profunda e investigação especulativa. Inspirado nas dinâmicas cinematográficas e em técnicas usadas na ficção científica e no terror, o poder ambíguo e afetivo do som sobrepõe-se ao visual, tornando-se o meio vital para revelar vestígios de memórias e ressonâncias afro-diaspóricas na paisagem açoriana.