O conhecimento vive para além dos livros e das instituições. Persiste também nos corpos e nas práticas do quotidiano — na comida que partilhamos, nos gestos e nas vozes que transportam memória. Estas transmissões informais ou marginais circulam fora dos circuitos oficiais, sobrevivendo como práticas de cuidado, imaginação e memória coletiva. No Convento — outrora lugar de clausura e disciplina — abre-se agora um campo para experimentar estes modos não normativos de conhecimento. Aqui, a abundância mede-se não pela acumulação, mas pelos vínculos: o que circula entre espécies, o que se conserva e transforma com o tempo, o que resiste à domesticação, o que perdura no detalhe e na memória.
Estas práticas lembram-nos que aprender e ensinar não é apenas reproduzir gestos institucionais, mas participar em movimentos coletivos, ecológicos e imaginativos. Esta estação convida-nos a sintonizar saberes que fluem pelas margens e a reconhecer neles a possibilidade de ensaiar outras formas de viver em comum.
Obras e Exposição
Carlos Carreiro
Sem Título (2011)
Uma figura importante na arte contemporânea Açoriana, Carreiro funde o surrealismo, crítica social e ironia numa linguagem visual densa e onírica. Nesta obra, apresenta um universo caótico e satírico onde se cruzam consumo, desejo, religião e natureza — um mapa profético de excesso e colapso, onde a vaca emerge como símbolo sagrado, económico e político.
Catarina Branco
Formas Endémicas #1 (2011); Luz Surprema (2011)
Catarina Branco trabalha a partir do gesto delicado do corte, evocando paisagens insulares e formas botânicas. Nesta peças, o papel transforma-se em geografia sensível, sugerindo territórios endémicos e imaginários. Um trabalho silencioso, atento e minucioso que convida à contemplação e celebra a abundância dos detalhes quase invisíveis.
Inês Coelho da Silva & Kita Rancaño Ward (Nova Comissão, Artistas selecionadas – Open Call para Artistas)
Gossip and the Commons (2025)
As artistas reimaginam o mexericocomo uma forma vital de comunicação ecológica e de transmissão cultural, partilhada não apenas entre humanos mas também entre espécies. Em proximidade com as paisagens e comunidades multiespécies de São Miguel, em particular as vacas Holstein-Frísias, Kita e Inês exploram a fofoca como um comum, atuando como veículo de saberes locais, práticas regenerativas e interconexão.
João Arruda – Coleção Museu de Lagoa (Arte Bonecreira, s.d.)
As peças de arte bonecreira, produzidas em barro, evocam o quotidiano e o imaginário popular micaelense. Figuras humanas, animais e objetos do trabalho rural surgem num registo entre o lúdico e o ritual, preservando memórias de práticas comunitárias.
Mirna Bamieh
Sour Cords (2024–presente)
Na sua prática, Bamieh entrelaça a política do desaparecimento e a produção de memória, explorando a alimentação e a história pessoal em relação ao coletivo. Nesta instalação, ingredientes tradicionalmente fermentados ou secos são transformados em objetos suspensos de memória e cuidado. Um gesto silencioso de resistência, onde tempo, transformação e preservação se entrelaçam como formas de abundância.
Uhura Bqueer & Soya The Cow (Nova Comissão)
Desdomesticação
Unindo drag, cosmologias queer e pensamento decolonial, as artistas propõem a desdomesticação como um gesto de libertação poética e política. Através de performance e instalação, desmontam as fronteiras entre espécies e exploram o corpo como território de resistência, desejo e reinvenção — entre a vaca pop e a onça sagrada, entre o ritual e o protesto.