O mar é um território de muitas camadas: arquivo de afetos, espaço de deslocação, lugar de extração, superfície de projeção, mas também repositório de violências. As obras reunidas nesta estação ativam o oceano como matéria viva, sensível e política — recusando a sua redução a recurso natural ou a postal turístico. Aqui, o mar não é apenas paisagem, mas campo de forças em disputa, onde memórias pessoais, rituais coletivos, gestos de reparação e experiências de deslocamento forçado se entrecruzam.
As peças em exposição convocam o mar como corpo em movimento, ao mesmo tempo íntimo e planetário, capaz de expor as tensões entre saberes locais e sistemas globais de exploração. Ao fazê-lo, abrem questões que atravessam o pensamento pós-colonial, a crítica ecológica e as epistemologias feministas e queer: como resistir à lógica extrativista que transforma águas e vidas em mercadoria? Como reinscrever geografias afetivas que emergem de rotas de migração, de comércio e de diáspora? Que imaginários históricos permanecem por reconstituir — ou reinventar — a partir do oceano?
Obras em exposição
Alexa Kumiko Hatanaka
Namazu (2023)
Hatanaka trabalha entre mundos mitológicos, ecológicos e psicológicos. Nesta peça, evoca a figura do peixe-gato sísmico da mitologia japonesa para explorar como as nossas emoções podem estar entrelaçadas com o ambiente. O mar torna-se um corpo vibrátil e sensível, atravessado por forças ancestrais e afetos íntimos.
César Schofield Cardoso
Blue Womb (2023 – ongoing), There Are Many Fishing Vessels (2023) / Knots (2024)
Blue Womb é um projeto multimédia que reflete sobre o oceano em Cabo Verde como um local de narrativas coloniais contínuas que ofuscam a violência passada e presente e ocultam cosmologias, poéticas e visões de mundo de comunidades pesqueiras. Procura compreender como a construção estética tem funcionado ao longo da história como um sedativo para a violência sobre os corpos e as paisagens. Cardoso contrasta a retórica da “blue economy” com imagens e gestos que reconfiguram o Atlântico como um espaço de sobrevivência e reinvenção, onde a memória e o cuidado prevalecem sobre a extração e o esquecimento.
João Pedro Vale
Scrimshaw (Sailor Jerry) (2011)
Com uma prática marcada por imaginários queer e crítica social e política, Vale apropria-se da estética marítima para evocar desejo, exílio e memória. A escultura apresentada convoca tradições navais e tatuagens de marinheiros, abrindo o mar a narrativas sensíveis e dissidentes.
Nadia Belerique (New Commission)
LOTA (2025)
Esta instalação, composta por esculturas e filme, parte da visita de Belerique à lota de Ponta Delgada, onde a artista transforma o tapete rolante num dispositivo cénico que reflete sobre valor, repetição e a invisibilidade do trabalho. O filme coreografa gestos, corpos e ritmos mecânicos, revelando o lugar do trabalho invisível nos sistemas de circulação económica e propondo uma atenção renovada às infraestruturas que moldam o nosso quotidiano. A instalação torna-se um cenário no qual os visitantes são convidados a experienciar a teatralidade do espaço da lota, em que o tapete funciona como palco principal desta performance quotidiana.