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exposição
25.09—30.11.2025
Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas
Gestos de Abundância: Arquipélago

Mesmo o que resiste a ser nomeado, o que escapa à evidência, pode ainda ser invocado. Nesta estação, reúnem-se práticas que dão corpo ao invisível, que lidam com presenças subtis e narrativas silenciadas. Não se trata de explicar ou fixar sentidos, mas de abrir espaço para sinais, símbolos e gestos que operam entre o poético, o espiritual e o político. Mais do que objetos, o que aqui se apresenta são invocações — fragmentos, altares, cantos, miragens — que nos lembram que o conhecimento também pode nascer da imaginação ritual, da escuta atenta e da abertura ao que não se deixa capturar, mas insiste em permanecer.

A abundância manifesta-se como vibração, eco ou transformação: matéria que respira, pigmentos que se transfiguram, imagens que devolvem outras formas de devoção e memória. Estas obras insistem em reinscrever o que foi apagado, reinventam rituais, fabulam histórias alternativas e ampliam as margens do visível.

Obras na Exposição

Alice Visentin (Nova Comissão)
Arcano Mistico
Uma freira robótica errante que revive a vida e o legado de Madre Margarida do Apocalipse, freira açoriana enclausurada e criadora do Arcano Místico — uma obra extraordinária e mística composta por mais de 10.000 pequenas figuras feitas de pão, resina, conchas e pigmentos naturais encontrados na ilha. Visentin reimagina esta figura como um símbolo de resistência e de expressão emocional, propondo uma cosmologia especulativa que combina temas de infância, faz-de-conta e adivinhação mítica.

Beatriz Brum
Corpos Subtis (2020–presente)
O trabalho de Brum desenvolve-se em torno da luz, explorando a sua materialidade, limites e formas. Em Corpos Subtis, parte do chakra raiz como ponto de entrada para uma cartografia vibracional do corpo. Através do som, da cor e do movimento, a instalação abre espaço para o subtil — corpos energéticos, estados meditativos, presenças interiores — invocando a abundância como equilíbrio vibracional e ligação cósmica.

Colectiva MALVA (Nova Comissão)
Encantar lagoas: retomar lembranças, celebrar presenças
Reativando memórias silenciadas das Festas do Espírito Santo através de uma perspetiva queer, decolonial e feminista, esta obra aborda as culturas, campos e crateras das Sete Cidades. Convoca presenças e histórias invisíveis, propondo rituais de afeto, transformação e pertença. Esta instalação é precursora de uma ação ritual que ativará estes objetos durante o Simpósio.

Ebun Sodipo (Nova Comissão)
The Way Her Teeth Settled
A instalação sucede a uma performance em torno da erótica: do som, do desejo sexual, da violência, da história e dos nomes. Seguimos Vitória, uma mulher trans escravizada, raptada no Benim e escravizada em São Miguel em 1556, enquanto se desloca de um laranjal para a sua casa através de uma série de encontros, até se lavar e finalmente adormecer. Ao longo desta viagem, surgem incursões pela política do arquivo ocidental, memória coletiva e pelos processos de racialização. Sodipo criou este altar subterrâneo como um espaço devocional e sensorial.

Gala Porras-Kim
Out of an instance of expiration comes a perennial showing (2022-2025)
A obra propaga esporos de bolor encontrados na coleção do British Museum, contendo assim um microcosmo dos mais de 8000 objetos que compõem a maior coleção do mundo, incluindo peças oriundas dos Açores. A obra questiona as lógicas institucionais preconcebidas de conservação e de valor. Ao provocar decomposição e renovação, afirma a sua função como parte de um ecossistema natural.

Graça Costa Cabral
Objectos de Culto I–V (2009)
Série de cinco esculturas em ferro e porcelana que exploram a ideia de objeto ritual sem prescrever função ou dogma. Inspiradas em formas votivas, narrativas mitológicas e gestos devocionais, situam-se num espaço liminar entre o sagrado e o secular.

Jane Jin Kaisen
Portal (2024)
Um filme mitopoético inspirado na deusa criadora da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul, Seolmundae Halmang, que dissolve as fronteiras entre corpo, rocha, mar e cosmos. Através de ritmos visuais e de imagens das zonas intertidais desta ilha vulcânica, Kaisen convida a um estado sensorial de fusão e pertença, onde o espiritual se incorpora na matéria e na vibração.

Silvia Mariotti
Almas de Cristal (2025)
Os trabalhos de Mariotti entrelaçam ecologia, ficção e arqueologia para refletir sobre mutações nos territórios. Através de fósseis imaginados, plantas especulativas e artefactos híbridos, Mariotti ativa uma memória mineral e botânica do lugar, especulando sobre futuros regenerativos enraizados na matéria sensível.

Walla Capelobo (Nova Comissão, Artista selecionada – Open Call para Artistas)
Ex-Votos for a Future Without Plantations
Não se pode dominar o tempo da terra, e é junto às fronteiras que outrora tentaram subjugar territórios que nasceram muitos daqueles destinados a respirar liberdade. Esta instalação especulativa semeia no imaginário a promessa de um dia despertar junto aos vulcões que se recusaram a ser dominados. Se o ferro enferruja e regressa a minério, chegará o dia em que a abundância da terra retornará e as monoculturas voltarão a ser florestas. A artista propõe, através desta instalação, um entrelaçamento de práticas espirituais afro-diaspóricas com cosmologias comunitárias açorianas e imaginários de quilombos.