Como um sismógrafo, esta estação regista abalos e movimentos que escapam ao olhar imediato, abrindo espaço para formas de conhecimento táteis e sensoriais. O que importa não é separar geosferas de biosferas, mas reconhecer as continuidades entre o que vive e o que é considerado inerte. Na Caloura, os trabalhos expandem o campo sensível do território: em sintonia com vibrações sísmicas, flutuações aquáticas, estratos minerais e ficções botânicas. A terra surge não como recurso ou solo estável, mas como um corpo em transformação — instável e relacional.
A partir da geologia vulcânica dos Açores, a proposta aqui é uma prática de escuta que se desdobra em atenção e imaginação política. Contra as lógicas extrativistas, os trabalhos exploram o que resiste à captura: murmúrios subterrâneos, estados suspensos, arquivos minerais e ecologias ficcionadas. A abundância torna-se porosidade — um território onde matéria, espírito e paisagem se entrelaçam, convidando-nos a habitar o mundo de formas mais lentas e interdependentes.
Obras na Exposição
Helle Siljeholm (Nova Comissão)
Black Smokers (2025)
Black Smokers surge no âmbito da série The Mountain Body, um projeto em curso de arte e investigação de Siljeholm que explora montanhas e formações geológicas como corpos mais-do-que-humanos entrelaçados no tempo e espaço geológicos. Inspirada pela comunidade de vida que rodeia as fontes hidrotermais e os montes submarinos dos Açores, a obra desdobra-se numa exploração sensorial em dois movimentos. Aqui, assume a forma de uma performance auto-guiada, oferecendo uma perspetiva de flutuar-em-terra que oscila entre corpo, geologia e o fundo do mar.
– Este projeto foi desenvolvido com o apoio de Perform Europe | Culture and Creativity
Lucy Bleach (Nova Comissão)
An Infrasonorous Archipelago
Este projeto parte da relação antípoda entre a Tasmânia e os Açores, explorando as energias vibracionais, as geologias frágeis e as práticas situadas que ecoam entre mar, terra e ar, ligando arquipélagos e imaginações. A obra envolve a monitorização infrassónica entre as ilhas, eventos e artefactos vulcânicos espontâneos, bem como práticas de natação e canto. Através de uma série de proposições exploradas em desenho experimental, vídeo, escultura e performance, o trabalho reflete sobre o valor do incidental, da reciprocidade e do que se sente (mais do que do que se sabe).
— A realização deste projeto foi possível graças ao Fundo Regional para as Artes do Governo Australiano, que apoia as artes nas regiões rurais e remotas da Austrália. (Australian Government Regional Arts Fund, Regional Arts Australia (RAA), RANT Arts (Regional Program Administrator)
Silvia Mariotti
Almas de Cristal (2024)
Mariotti investiga memórias ecológicas e transformações do território, reimaginando o arquipélago como uma zona de mutação. A instalação convoca fósseis ficcionais, plantas impossíveis e matéria oxidada para refletir sobre colonialismo botânico, ficção científica e a inteligência da matéria como forma de resistência e abundância.
Sofia Rocha
Câmara quente (2024)
Na sua prática, Rocha entrelaça geologia, ritual e espiritualidade. Esta série de desenhos desenha um sistema simbólico e matérico onde a terra é corpo e linguagem. Diagramas e gestos revelam forças invisíveis, memórias minerais e futuros em latência, ativando uma escuta ancestral e sensível.
Coleção CCC (vários artistas, s.d.)
Paisagens íntimas, esculturas em baixo-relevo e atmosferas subtis habitam esta estação como vozes calmas. Entre névoas, vinhas e silêncios minerais, estas obras expandem os gestos contemporâneos e evocam outras formas de abundância: sensível, lenta e intergeracional.