Os almanaques servem como ponto de entrada para imaginar a geografia através de relações e saberes situados. Misturando previsões meteorológicas, rotas planetárias, conselhos agrícolas e sabedoria popular, funcionam como mapas alternativos — tecendo tempo, atenção e experiência numa inteligência coletiva que atravessa gerações. Como arquivos porosos de diversidade e multiplicidade, ressoam com a noção de ecótono: zonas de transição entre ecossistemas, onde diferentes formas de vida se cruzam, adaptam e coexistem. Em diferentes escalas — culturais e ecológicas — tanto os almanaques como os ecótonos são lugares de contacto e interseção, onde múltiplas formas de conhecer e viver convergem.
Ecótono, ensaio vídeo de Enar de Dios Rodríguez, prolonga esta reflexão. Tal como um almanaque, torna-se repositório de migrações, observações e narrativas.
Obras em exposição
Almanaques: conhecimento em circulação (várias edições: 1990-2023)
Seleção de almanaques agrícolas e populares dos Açores e de outras geografias. Incluindo informações que vão das previsões meteorológicas e conselhos agrícolas a receitas caseiras e crenças populares ligadas aos astros, estes objetos revelam saberes enraizados na relação com o território, com os ciclos da natureza e com formas populares de viver e interpretar o mundo.
Enar de Dios Rodríguez
Ecotone (2022)
Um ensaio sobre territórios de fronteira e as práticas de controlo impostas aos espaços para preservar a sua separação. Estruturado como uma série de campos organizados por escala — das vastas paisagens naturais aos espaços íntimos do corpo — Ecotone critica formas contemporâneas de capitalismo, incluindo o capitalismo de vigilância e o biocapitalismo. Através de uma ampla variedade de materiais visuais, a obra procura ativar relacionalidades potenciais, ao mesmo tempo que revela como forças económicas, políticas, históricas e ambientais se intersectam.