Abundância
Enquanto ecótono — uma zona de contacto e transição — os Açores são um lugar onde o vivo e o não-vivo se cruza, e onde as fronteiras entre geosferas e biosferas se tornam porosas. Ao longo da sua história, o arquipélago foi território de passagem e fricção: entre placas tectónicas, continentes e mundos. Das travessias transatlânticas às infraestruturas militares e científicas, e das práticas espirituais e agrícolas que moldaram estas ilhas, este território carrega marcas geológicas, políticas e culturais profundas.
É neste enquadramento que se realiza a primeira edição da Bienal Walk&Talk, intitulada Gestos de Abundância. A partir destas ilhas, consideradas uma região ultraperiférica, surge a questão: como podemos deslocar a nossa perceção de escassez para uma de abundância cooperativa? Esta mudança não é retórica — é ética, ecológica e política. Convoca práticas que regeneram, que emergem da escuta e que privilegiam a conexão em vez do isolamento. Abundância aqui não é excesso nem acumulação, mas uma densidade de relações: entre mundos, saberes, espécies, práticas e temporalidades. Um convite a mapear outros modos de ver e sentir, a pensar com o território e não apenas sobre ele — a partir das suas camadas geológicas, espirituais, culturais e políticas.
Vivemos um tempo marcado por profundas desestabilizações: colapso ambiental, tensões políticas crescentes, retrocessos em direitos fundamentais e uma fragmentação crescente do tecido social. Os mecanismos que outrora sustentaram as nossas vidas revelam sinais de exaustão, e as promessas de progresso expõem as suas falácias. Neste contexto, torna-se urgente reconsiderar gestos que cuidam, que escutam, que transformam — gestos capazes de reativar saberes esquecidos, reparar vínculos quebrados e imaginar outros modos de habitar o mundo, de forma coletiva e responsável. A arte, enquanto espaço de experimentação, partilha e invenção coletiva, oferece as condições para os imaginar e ensaiar.
O pensamento arquipelágico e as cosmologias Indígenas convidam-nos a reconhecer a Terra como uma força ativa e relacional, em vez de um palco passivo sobre o qual a vida decorre. Esta perspetiva inspirou o processo curatorial da Bienal: rizomático, sensível, ancorado em autonomia e na proximidade. Mais do que um projeto de exposições — é uma proposta de advocacia social e cultural. Um espaço para experimentar modelos de relacionalidade entre arte, território e comunidade. Uma Bienal que procura estar enraizada, comprometida com ecossistemas locais que emergem da inteligência colectiva e da generosidade.
Com curadoria colaborativa de Claire Shea, Fatima Bintou Rassoul Sy, Jesse James e Liliana Coutinho, em diálogo com as equipas da organização, a Bienal Walk&Talk 2025 constrói-se como um processo coletivo e atento. Partindo do gesto como forma de ação e imaginação, Gestos de Abundância reúne comissões desenvolvidas em residência nos Açores, obras existentes e projetos que ativam uma ecologia de práticas, ideias e relações.